Segunda-feira, Novembro 26

Me... and I...



[Humano por ornamento…]

Deram-me este corpo, vivo-o por coincidência [ou oportunidade!], desmantelando aos poucos a minha essência… as vírgulas, as pequenas letras, as pessoas, os sons, as simpatias, os sorrisos e as questões…

Volta e meia… Sento-me, observando as pessoas que por mim passam, que me vão rodeando aos poucos, num café, numa praça, num comboio… Invejo-as! Inveja a quietude que seus olhos trazem, um sossego de alma, um sorriso inocente, embrulham-se em emoções simples, sem muitos pensamentos, apenas vivendo [ou até não se lembrando de viver!].

Odeio este meu desassossego… Quantas vezes não fiz do alcatrão a minha privada almofada onde deitei meus pecados a dormir… Uni letras aperfeiçoando palavras cansadas de pouco existirem em mim! Um sentido mundano de todo um “eu” moído!

Muitas vezes me perdi… Muitas vezes fui as partes do texto que não sobreviveu… E, apenas em segundos, quero desistir de minha parte metálica a que eu chamo santuário, por ser mais que um erro…

Um defeito de alma precisar de esculpir por e com… palavras!

[Quem sabe, vá encontrar o meu talvez entre todas as linhas unidas deste parênteses…]

Late...


“Não seria mais fácil cair deste abismo… do que te deixar aproximar…?”

“Pessoalmente, não sei o que temes…!”

Congelava aos poucos os meus movimentos, ia procurando os meus cigarros, sentia a alma demasiadamente nua [!]. Era apenas um café… Era apenas uma noite… Era apenas uma mulher…

“Todos os vícios precisam de uma paz…! Por mais momentânea que ela seja, mas repousar as mãos, a alma, sentar um pouco as palavras na cadeira e esquecer, esquecer que ainda existe algo quase idêntico ao conceito de inspiração…”

Procurava o meu copo, as letras secavam-se em minha boca, suava ligeiramente e olhavas para mim, procurando tal como eu, embarcar em algum género de conforto, mas… estavas demasiadamente decidida… […não estavas?]

“Confessa… Ainda tens o sabor da saudade em tua boca!” sorrias, levantando o canto direito de teus lábios [o teu particular pormenor] para a cima “Skin on Skin… não era assim? Quantas vezes não sacias-te essa tua fúria, essa tua fome de palavras em mim? Quantas vezes em minhas costas foste escrevendo frases, vírgulas, as reticências que adoravas me dar a beijar…?” puxavas o corpo mais para a mesa, antecipavas a minhas resposta, mas algo te calou… Talvez por a noite estar tão amena… Talvez por notares que meu medo desvanecia… […Porque?]

“Já amputei esse membro faz algo tempo, ambos sabemos disso… Não me venhas com teus fantasmas! Não resultam, não aqui, não agora… Posso ser apenas uma vírgula daquilo que eu era, mas ambos sabemos da dor infligida mutuamente, ambos sabemos que não resultamos, ambos sabemos do passado… Vamos, simplesmente, evitar uma repetição…” cai em minha cadeira, já exausto de todo este tempo, já sem saber de mim… Aproximavas teu corpo da mesa… [estavas bela! Sempre adorei te ver com teu cabelo apanhado…]

Senti teu sapato junto a seguir a linha de minha perna… Tremi! Sorris-te…

“Vês…?”

“Isto não é nada… Um toque não é nada sem um sentimento! Mas aqui, as sombras sentem mais do que a luz! Posso estar bêbado de todo um metódico prazer em negar aquilo que eu poderia até querer! Mas não o teu pedaço de carne privado! Atas-te minhas palavras e minha alma a tua saia tempos longos… demasiadamente longos! Cantas-te os meus silêncios enquanto os escrevi em tua pele! Prefiro renegar um prazer do que a sanidade de minha alma! E por muito que eu tenha visto através de teus olhos! Sim, as noites claras em que esperei uma nova vida ao pé de ti, as noite passadas amarrado a um não querer continuar a ser mais água que bailava em tua chuva…”

Era como se fosse trovão, a cadeira, a mesa, o cinzeiro, a respiração. Senti todos os segundos de meu discurso, senti o meu adeus, senti teus olhos colados em mim, senti o cigarro me queimar os dedos, senti minhas costas se virarem…

A noite estava amena, tu estavas bela, eu e um adeus naquele ali.

Senti tua mão em meu pulso… e...