Segunda-feira, Dezembro 26

Summer.

XX: b

Caro|a| Leitor|a|, aceite a minha profunda gratidão pela espera e pela paciência, mas sou a próxima tentativa - falhada, convenhamos - de concorrência directa da revista Maria.

Nota: tenho em alta estima a revista Maria, sempre acompanhou os mais variados Consultórios - incluindo, Psicólogos, Psiquiatras e outros tantos começados por Psiq. - de uma forma devota. Deveriam a promover a Canivete, não Suíço, mas Nacional. 

As palavras demoram o seu tempo: temos que ser pacientes, esperar que elas nos mordam os cotovelos, que o Kit de Primeiros Socorros à venda no Hipermercado mais próximo se torne demasiado inútil para o tamanho de tais dentadas - atenção: as palavras são umas sacaninhas de alta patente. Continência, por favor!

E, legitimamente, pergunta Mas afinal o que é que este gajo está a escrever? enquanto tenta perceber se o Café acabadinho de ser parido dessa nova máquina que lhe ofereceram pelo Natal é ou não melhor que o Café da sua velha cafeteira que, em seu pensamento, já serve para ganhar pó na prateleira da cozinha. 
Respondo, atenciosamente enquanto procuro o meu isqueiro, Não estou a escrever nada, sabe? Nada. Isto que vê por estas paredes, por estes corredores, por cada porta que abre nesta minha Casa, é sentimento.
Vá, não pense que estou a tentar ser profundo, não lhe vou bater à porta para vender filosofia de bolso.

Esqueça o sarcasmo e a ironia, estas próximas letras são sérias. Admiro quem escreve - não vou usar o termo Escritor porque para mim tem uma conotação demasiadamente profissional e vendida - quem tem a coragem de sentar-se e enfrentar a página em branco, ter essa atitude demonstra entrega, por mais que a escrita seja uma espécie de poluição visual ou até sonora, não interessa. Parabéns a todos os Artesãos e Artesãs de letras.

É mais que óbvio, não se deu ao trabalho de colocar o endereço da minha Casa para lêr o que eu acho ou não sobre quem escreve ou até sobre a revista Maria, guardo as divagações para outros copos.
Quer a continuação.
Eu afirmei que ela existia.
Já coloquei o número dos Serviços Espíritas que frequento em Fast Dial no meu telemóvel. 

Está frio, vamos animar um pouco esta fogueirinha, Quero-o|a| com todo o conforto.

Existe uma carta, que nunca saiu das minhas mãos. Talvez pelo tempo, talvez pela altura, talvez pelo momento, talvez por saber que ela nunca iria compreender a minha caligrafia. 

Uma carta. Manchada de tinta. Manchada de reclusão. Manchada de mim.


Minha Querida,

Domingo pela manhã. Já não sei o que é um Domingo sem ti, ou um Sábado ou uma Segunda, resumindo, já não sei o que é ter-te longe. E agora que o sei, desejo não o saber.

Sim, estou na cozinha a beber café armado em Menina que não teve par para o baile, voltas ao fim do dia, é esse saber que me faz esboçar um sorriso seguido de um ligeiro amuo - com Biquinho e tudo - para quando chegares eu bater um pouco o pé e fazer fita de forma a que me abraces, muito.

Esta Casa não é Casa sem ti. Paredes, armações brancas, móveis escuros, lareira. Um corpo vazio.

Estupidamente pseudo romântico, ambos sabemos.

Hoje não fui comprar o Expresso, não fui comprar os Croissants, não tomei o meu café na mesma Pastelaria de sempre. Além de teres levado o Carro também levaste as chaves da Porta Principal. Quando chegares, de castigo, vais ao Pingo Doce buscar o Espumante. Assumo: não me valia de muito comprar tudo isso, não te tenho na cama, não te posso arrastar para a cozinha pela perna enquanto resmungas que queres mais um pouco de Edredon e eu prometo com um sorriso que depois de comermos levo-te novamente, mas ao colo.

O Sol banha esta manhã quase em sufoco, já deves ter tocado no ar morno e sorridente que baila. Levei-te em memória até à varanda e aproveitei para regar os vasos.

Senti-te a levantar. És espalhafatosa quando acordas. Era escusado teres acendido as luzes do quarto, podias ter a tua roupa e mala já preparada, embora que a tua redenção por tal blasfémia foi no mínimo brilhante. Não troco o teu primeiro beijo da manhã por nada deste mundo.

Demoras muito a chegar? Já estás atrasada nesta saudade.

Preparo o meu segundo Café. Já fumei. Eu sei que não gostas que eu fume logo pela manhã. Mas, Querida, sou um animal de fraquezas carnais. Toca Jeff.

"Oh the welts of your scorn, my love
Give me more.
Send whips of opinion down my back
Give me more.
Well it's you I've waited my life to see,
It's you I've searched so hard for."

Já dei a minha volta pela sala, descalço, em boxers, a cantarolar. Os vizinhos é que não devem gostar muito destes meus ataques de brilhantismo oral.

Quando fui buscar a colher à gaveta encontrei os Hashi que me obrigaste a comprar para a Massa Chinesa. Tenho o som do teu riso guardado por entre a minha ineficiência enquanto me tentavas ensinar a comer com tais ferramentas. 

Também foi em um Domingo pela manhã. Acordei-te depois de chegar a casa, tinha ido correr bastante cedo. Essas são as únicas calças em que o teu rabo tem forma!, sorrias palavras de olhos meios abertos. Recordas-te? Preparei todo o pequeno almoço com pompa e circunstância, levei tudo para a cama, a minha mão fria em tua barriga. Deixamos a louça salpicada de Gatos ao pé da janela. Expulsaste-me para o banho, querias pintar as unhas sem eu reclamar o porquê de o estares a fazer na cama quando os lençois são brancos. 
O relógio batia as Oito. 
Apressei o meu corpo pela água. Quando sai em toalha, fixei-te: estavas sentada no limite da cama, a pele das tuas costas gritava pela minha atenção, o teu cabelo cobria os teus ombros do ar morno, a persiana sorria com pequenos estilhaços de luz. O tempo formava estradas e ruas e becos, eu, sem mapa, pé ante pé, num labirinto de asfalto e metal. Apenas um som. Um único som. O som de gotas Vermelhas. Uma a uma. Em tuas mãos, em teus pés. Uma a uma. 

Fui até à Cozinha fumar um cigarro, aproveitei para arrumar a louça que já estava seca. Estava a arrumar as colheres, tinha uma tigela na outra mão, vi os Hashi

- Piloto automático: peguei em um Hashi, pousei a tigela, fui ao frigorífico buscar o topping de chocolate, abri, dois dedos do fundo da tigela com chocolate frio e líquido, arrumei, passei na sala, Antony em Repeat, quarto. -

Arrastei-me pelo colchão, desviei o teu cabelo, misturei a minha saliva morna com o quente dos meus lábios pelo teu pescoço, arrastava os meus dentes, trinquei-te em câmara lenta: a pele do teu pescoço desfazia-se ao poucos em minha boca. Procurei em pressa a tua boca, a tua língua, uma bailarina pequena e frágil. Afogava-me na nossa respiração.

- Que tu queres?
- Deita-te. Costas para cima.

Sentei-me ao lado do teu corpo imóvel, deixavas a cabeça na almofada, braços por baixo, olhos fechados. Peguei na tigela, no Hashi, rezei baixinho aos Deuses da Casa. Moldei um pouco daquele chocolate na ponta do Hashi, comecei a escrever lentamente em tuas costas, com gestos delicados, sentia que pintava uma Flor em tela branca. Nasciam palavras. Foste berço, ali, deitada, com tua pele marcada por sombra. 
Desciam as frases, teu corpo arrepiava cada vez que me arrastava para perto das tuas costelas. Invadia-me a vontade de esquecer o que estava a fazer e simplesmente devorar a tua carne como animal esfomeado. 
Começaram a tremer-me as mãos. Os dedos. As unhas.
Parei no fundo das tuas costas. Tenho fome!, O que esperas?, comecei: letra a letra, palavra a palavra, frase a frase, a lamber e a beber de ti. Arrastava a língua, ficavas com a pele morena, sentia-me Sol. Fui cravando os dedos em teus ombros, em teus lábios, as paredes coravam, tapavam os olhos em vergonha. Ia limpando o excesso de saliva com meu peito, parte a parte, linha a linha. Uma mão em tua bacia. Virei-te bruscamente. Quero boca!, tingia-te de mim, de meu cheiro, de meu corpo. Roçavas as tuas pernas nas minhas, um bailado lento, perfeito, como se tivesse vida própria. 
 
Queria naquele momento construir, tijolo a tijolo, uma sinfonia: uma pauta de fios de saliva, os lóbulos das tuas orelhas um Compasso Ternário, semínimas e mínimas e fusas de teus pés.

Domava-me o apetite: os teus braços, pouco!, os teus dedos, pouco!, os teus seios, pouco! 

Fragmentávamos o desejo, os olhos, o resto da roupa que nos tapava. Corríamos de forma a conseguirmos aprisionar as nossas vozes em mudez absoluta. Olhava para teus seios: estavam cobertos de resina. Fiquei muito quieto, quase congelado. 

- Toma-me, por favor, toma-me!

Lembras-te?

Hoje é Domingo, ainda pela manhã, estás muito atrasada.

Eu sei, da velha guarda estas palavras, papel e caneta, deixei de lado a companhia do Portátil com o qual tanto dizes que te substituo.

Despacha-te, quero morder os teus sonhos. Olha o relógio. 

Espero-te: de dedos abertos Minha Querida, de peito ausente Meu Amor, de Asas partidas Meu Anjo.

Teu,
J.


Não se interrogue sobre o que foi escrito, mais tarde ou mais cedo, irá descobrir.

O romancear!, adormecido, é como uma caixa desmembrada: nunca cabe lá tudo o que queremos.

Preciso de respirar Caro|a| Leitor|a|, um pouco de ar, um pouco de noite, um pouco de chuva. Já chamei o meu INEM privado, o Fast Dial dá sempre jeito.


| Pausa - espero que tenha as mãos e os pés quentes, o papel queima depressa demais, não acha? |


 

2 comentários:

je suis...noir disse...

acho sim, caro, "escrevente" :)

e vai amarelecendo depressa no esquecimento de amar...
( citando al berto, mais ou menos :))

J. disse...

je suis...noir,

"como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar."

Que nem uma luva Minha Cara.

:)