Domingo, Janeiro 29

Season in Seasons.

XX: c


Caro|a| Leitor|a|,

O interessante de uma noite marinada em insónia não é propriamente o que pode ou não fazer com esse excesso de tempo - sou Guru neste assunto - é, sem dúvida, se a garrafa que tem na secretária está ou não vazia e se o maço de cigarros é da marca correcta.

|brincas pelo chão com teus pés descalços peço-te para te calçares friso que podes ficar doente sorris apareces com um par de meias brancas quentes minhas peço-te para calçares os chinelos meias brancas e chão não são boa mistura dizes que não te importas que sou eu que lavo a roupa|

Não imagino o|a| Caro|a| Leitor|a|como pessoa dada a tais prazeres, sugiro que qualquer dúvida sobre o que fazer com tais elementos lúdicos me seja pronunciada.
Agora até pode escrever para o meu livro de reclamações: atencioso que sou!
Certamente que lhe irei fornecer a minha morada para envio dos mesmo, análise laboratorial aprofundada.
Garanto resposta em tempo útil.

Deveria ser eleito a serviço público, protector da saúde alheia.
Este ano ainda concorro para esses famosos Eleger o Blog. Aceitam-se sugestões para a Categoria. Talvez consiga rematar, tal Futre, um Chinoca para os lugares baratos.
Se ganhar, a única coisa que peço é uma viagem com a Capuchinho Vermelho, aos Bosques tantas vezes descritos. Quero saber se as minhas mãos são ou não material de concorrência ao Lobo Mau.

|os teus cabelos e a noite estão casados sem espaço para divórcio|

Não sei bem o que vai sair destas páginas esta noite. Facto: coisa boa, não é, concerteza!, está em uma casa Portuguesa!

Nota #1: Desisti dos elogios gentilmente tecidos ao ícone que é a nossa Revista Maria. Não quero alimentar desgostos das Donas de Casa - desesperadas ou não, assunto para os seus Queridos Maridos - já soube das publicações periódicas de erotismo em poluição letral. Esses dois dedos de conversa ficam para - o - privado.

|acordas os meus olhos com um beijo sinto o teu corpo quente o sofá parece um mar de sereias deixas o limiar das linhas que separam a nossa distância a sufocar as almofadas transformam-se em ilhas quando atiradas para o chão envolvo a minha língua em teu pescoço esperas até o meu oxigénio se alojar em tuas ancas e entre os dentes pedes-me|

Abro a janela. Encontro a Lua deitada pelo asfalto, meia esverdeada. Convulsão atrás de convulsão.
Sorri.
Engraçado.
Sorri.
Um sorriso estrábico.
Um sorriso de saber qual é o caminho.
Um sorriso de saber que o 112 nunca irá chegar a tempo.
Quando estiver serena, completamente esticada no lençol irregular e escuro, pálida e hirta, irei fechar a porta de casa em pressa, ajoelhar-me ao seu lado, pegar na sua mão com toda a suavidade que conheço e pedir: Quero que sejas a minha Fada Madrinha.

Nota #2: Calma Caro|a| Leitor|a|, ainda demora. E a garrafa, nem a meio está.

Como os meus Serviços Espíritas estão cada vez mais ocupados, é um milagre atenderem as minhas chamadas. De pouco adianta ter o telemóvel ao meu lado. Estes dias, optei por uma terapia mais barata. Lavo, esfrego, limpo o meu corpo em lixívia. Compro na loja aqui da rua, sou a favor destas microeconomias em garrafas amarelas.
Corpo limpo quando a alma e a boca brincam na lama.

|preparei-te um banho de espuma só para vêr a forma como me despes a alma|

Entre estações deveria existir outra estação. Entre a Primavera e o Verão, entre o Verão e o Outono, entre o Outono e o Inverno. Uma estação flutuante. Uma linha entre as linhas.
É confortável imaginar o morno do ar: nada de frio ou quente, morno. As flores quase abertas. O dia que ainda não começa cedo demais, nem acaba tarde demais. As folhas amareladas a vestirem as Árvores. O frio sem casacos grossos e gorro e luvas. Um equilíbrio. A prometer o que será sem o ser.
Talvez seja esse o nome mais correcto: uma promessa de Primavera, uma promessa de Verão, uma promessa de Outono, uma promessa de Inverno.

|olho o rio olhas o rio vou desabotoando o teu orvalho óculos de sol tremes na voz|

Lamento, mas tenho que correr! Preciso de ir até ao Vidrão antes de pedir a mão à minha futura Fada Madrinha.

Nota #3: Não é simplesmente perfeito quando todas as Árvores parecem feitas de Pólvora Granulada? Uma sinfonia de Corvos, o chamamento por uma chama.

|fechas a porta abres a janela tens sal espalhado no lugar que ocupas os meus livros empilhados dizes que o meu Pijama é largo embalas-me nas fissuras de não te vêr| 

Ah! Claro que isto ainda não acabou Caro|a| Leitor|a|, claro que ainda está para durar, claro que ainda vou dedicar mais umas linhas às suas vistinhas, claro que ainda não sabe tudo ou metade ou se calhar nada. Mas, lógico que o|a| Caro|a| Leitor|a| não irá lêr estas palavras quando editadas. Por estas horas certamente que está a dar o famoso passinho de dança, afinal, é sábado de madrugada, com as suas capacidades sociais ao rubro, o seu copo com gelo e alguma bebida adocicada com a devida palhinha, sempre com a ideia em mente que a Cara Metade lhe irá dar o merecido tratamento ao bater na cama.

Troco os meus sapatos por essa perfeita Vidinha.

Negócio fechado?




|o mundo é uma janela aberta para teu peito desenhei em chocolate|



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Sexta-feira, Janeiro 27

Fifth Season.

quero saber o nome da maresia que trabalha por teus cabelos
beijar-lhe a mão em vénia, agradecer as docas em quartzo
nós |de correr ou forca| no limiar da tua língua
como destroços que atracam em ondas altas

o tempo: esse gentil Cavalheiro
perdoa-me o tentar ser marinheiro por cimento e pedra
desconhecendo toda a areia que teu corpo alberga



"For the Beautiful signifies the possible end of Horror."



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Quarta-feira, Janeiro 25

Meteorology.

Pestanejam as Paredes: borbulha uma palavra, quase em um murmúrio imperceptível.

Dorme um Colosso de pedra pelas vidas passadas do que era a Cama.
Disse-me entre Marés Ácidas. 

- Something eats at me. I smoke too much. I drink too much. I die too slowly.

Tapei-lhe a boca com fitacola. Deixei-o a marinar pela sonolência.

sofá
a tua silhueta
calcário poroso

Noites em que os meus dedos, húmidos do teu orvalho, são levados até aos meus lábios - privado Bâton de Cieiro - para acalmar os Deuses da Casa e as suas Mecânicas. 



"Hey, baby there's a vampire moon,
Scaling the sky,
Shine in your room.
Your eyes are open,
You got nothing to do.
Come outside and play with me
Tonight."



Peço a Saturno um dos seus Anéis. Digo-lhe que é para ti. Digo-lhe que é para ser teu embrulho. Digo-lhe que é para embrulhar a tua cintura



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Terça-feira, Janeiro 17

Cloud.

O Mundo, em todo o seu vidro opaco, de pulsos abertos: 

oferece-me o corpo dela
branco e cru 

um diapasão em carne, com nome e forma, com olhos e cabelos, com lâminas no lugar de dedos. Um Lá de 440Hz  pronto a afinar as minhas mãos.

Da minha varanda ouço Anjos sem voz.
Confesso-me: não sei confiar nas Estrelas, são cães furiosos que guardam Deuses sem nome.

Sentada ao meu lado, a Noite, quebra as insígnias de sua boca. 

"Jesus said to Mary, you really can come,
I'm tired, love, and I'm feeling real numb.
Gotta see if my father's come,
I'm under pressure, while I'm under the sun."

- O que desejas?
- Desejo ajoelhar-me aos Pés dela. Despir-lhe os Sapatos. Beijar-lhe os Tornozelos. E pedir, em sussurro, que arrombe o silêncio ensurdecedor de meus ouvidos



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Quinta-feira, Janeiro 12

Blizzard.

quando nos fundimos o Mar junta os seus Pés transformando-se numa Banheira de Porcelana e existe um Gigante um Colosso com membros de Zinco que se aproxima lentamente da Banheira de Porcelana os Pés dele são maiores que os Carros que as Casas que os Prédios Pé ante Pé lentamente com as suas Pernas do comprimento do Céu entra na Água tépida que sobe e sobe ao entrar a Água tépida começa a fervilhar ao entrar a Água tépida vai escorrendo ao poucos gota a gota inundando Praias e Olhares e os nossos Joelhos quando nos fundimos a Pele transforma-se em Pirite a minha Pele Pirite a tua Pele Pirite Pirite que brilha Pirite rugosa Pirite com falhas Pirite que rasga a Pirite transforma-se em Carapaça a Carapaça transforma-se em Escamas brilhantes que chocam que colidem em faíscas metálicas quando nos fundimos não temos Carruagem não temos Cavalos brancos não temos Caminho temos a pressa a pressa de ir a lado nenhum a pressa de ir ao limite dos lençóis a pressa de sermos travados pelas Mãos Mãos que são Âncoras Mãos que são Âncoras cravadas na Terra no nosso cheiro a Terra húmida quando nos fundimos Eu não existo Tu não existes existe o Nós existe o Um existe a mistura é uma soma o Eu mais o Tu igual a Nós podes usar até o seu símbolo dois traços um na Vertical outro na Horizontal juntos coincidentes no centro são dois traços tal como Eu e Tu que se tornam em Um só Soma-me quando nos fundimos as tuas Costas sofrem uma Metamorfose Crisália quando se abre és um Arco quase perfeito as tuas Costas um Arco quase perfeito que cheira a delicadamente a Flores e a Espumante e a Saliva quando nos fundimos deixa de existir a Música deixa de existir a própria noção do que é o Som para o descobrir mais tarde todo o Ruído do Mundo a nascer nos teus Lábios nos teus Dentes a morderem os teus Lábios quando nos fundimos devoro-te por completo devoras-me por completo somos Animais com Dentes afiados e Unhas de Aço famintos pelos lugares que habitamos pelos rastos avermelhados de Carne quando nos fundimos não existe Pontuação não existe Semântica ou Morfologia ou Gramática uma Protolinguagem criada pelas Estradas que o teu Cabelo tapa e entrelaça e destrói quando nos fundimos somos o mesmo Norte somos o mesmo Sul fechados dentro de uma Bússola sem Mãos onde se guardar


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"During the passage past the Charlottenburg Castle Park suddenly the sorrow
GREEN IS THE COLOR OF CALAMITY The trees belong to the dead."


Segunda-feira, Janeiro 9

Air Pollution.

a tua boca
não é uma boca
é uma porta embutida
a um mundo em quarentena

nasces |me| como éter
povoando a ausência de qualquer fricção

fome

fome de gritar aos Deuses da Casa os teus gemidos suados

a pele é tão pouco
a carne é tão fugaz
quando somos imagens
                               desenhadas
                                              em poeira 

sopra |me|



esse planeta que habitas refugia-se a quantos dedos do sol

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Quinta-feira, Janeiro 5

Supercell.

olhar
olhar muito olhar como quem nunca olhou olhar como quem nunca viu

descobrir
com um sorriso que guarda um segredo

descobrir que o Mundo arde
pela vaidade do teu nome
a clarear
os destroços de mim

Pinto: estás de joelhos com o teu perfeito vestido uma mão apoiada no chão a outra em movimentos lentos a apanhar os teus cabelos rasgados pelo abismo de outra qualquer palavra.

O meu corpo - errado - guarda o paladar do teu suor por seus lábios como gotículas de gasolina que nunca conheceram o eco de uma estrela a implodir.


Que a Noite, seja gentil


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Gymnopédie n.º 1