
Era mais uma viagem, mais um movimento, o mesmo espaço, algumas das mesmas faces residentes por ali… mas, a maioria daquelas almas que me rodeavam, estranhos, um desconhecido na palma de minha mão…
Esperava meu comboio, mais uma de muitas vezes.
Sorria intimamente na melodia de Patricia Barber, a minha perfeita musa existencialista, a minha amante destas alturas cinzentas [cada melodia, um beijo… uma sedução para este algo que me leva a imaginar um abstracto em tons de concreto!].
Reparava nos vários casais que me envolviam… A despedida: o beijo! a intensidade entre silêncios e olhos molhados, lágrimas que pendiam, algumas deslizavam como pequenas estrelas cadentes [tapadas neste céu de Janeiro], promessas de saudades, de telefonemas, cartas ou até promessas de nada!
[Adeus! Liga-me quando chegares… Amo-te! Demais! Não te esqueças de mim!]
Vou colorindo teu corpo nesta minha tela de palavras, que se arrastam lentas, tentando uma perfeição sonora em cada momento de expressão…
Eram sôfregos de palavras, a necessidade de etiquetar sentimentos [os olhares não chegavam], a alma que gritava o momentâneo ali, uma quase sinceridade, um quase desespero. Não seria tudo apenas o sentimento bêbado de uns segundos? Amanhã a lembrança e um aperto no peito, depois o nada, apenas a memória…
Pergunto-me… E o encantamento? Iria se desvanecer após alguns dias?
Tento esconder-te deste mundo, só para mim, só nestes refúgios, mais que sintaxe ou lógica, tu em mim, sugerindo um “nós”, que vai dançando vaidoso e sorridente entre minhas mãos…
Poemas de frases embebidas em corpos, em salivas, em lágrimas, em esperanças, em promessas, em complicações… [em nada?].
Dói-me a alma em cada amanhecer que não te beijo, em cada despedida, em cada tempo que fazes mais e mais sentido em mim, em cada chuva que deveríamos estar juntos…
Não gosto destas viagens, pela inveja de segundos que me arrasa a alma em esperanças e visões [pseudo] poéticas, pela negligência do espaço criado entre beijos sonoros de um momento que se promete num sempre…
Entretanto, vou roubando segundos em meus pensamentos, na esperança que esta distância seja apenas uma neblina em nosso amanhecer…
Resto-me eu, a minha amante e uma melodia que é eco entre a chuva reguila que molha meus lábios [beija-me o céu em noites de reclusa solidão…].
