
O meu Amor nunca mais vem... não é normal este atraso, costuma chegar sempre a horas, sempre pontual com o seu pequeno relógio! Sim, é tudo pequeno com ela, gosta das coisas pequenas, até o seu sorriso é pequeno, conservador e ameno, tal como a sua bolsa, nunca vi uma mulher com tantas bolsas pequenas como ela, é estranho mas engraçado ao mesmo tempo!
Nunca a viste?! A sério?! Nunca mesmo?! É linda, ela é linda, juro! Claro que a minha opinião é cega, mas gosto desta cegueira que ela irradia em mim!
Ela é como… como… como aquele momento em que o vento respira quando sopra por um chão poeirento, em que consegues ver todas as partículas a pairar, como se alguém tivesse carregado no botão “Pause” e depois volta, o vento volta… Eu fico pasmado cada vez que a vejo, não me sinto a respirar sequer, não me sinto, sou mais que eu mesmo, mais que eu.
Tem um andar pequeno… Sim! Sim! Tal como a bolsa e o sorriso e o relógio, pequeno, leve, não é como aquelas que se abanam todas, não, nada disso, não o meu Amor! Anda suave, diferente… Melhor, não anda, desliza, entre as ruas, entre as pessoas… É mesmo isso, desliza… Gosto tanto da pele dela pela manhã, nunca a vi acordar, nunca assisti a esse momento em que ela abre os olhos… mas já a vi pela manhã, ao longe, só ao longe, mas acorda com a pele brilhante, calma, dá vontade de tocar, muito, vontade de não parar de tocar…
Desculpa?! Não!! Não mesmo!! Sexo, não!! Ela é além disso mesmo… não tenho capacidade de lhe tocar, não que me falte a vontade, ela é vidro, é cristal, não lhe quero estilhaçar o corpo, só a quero ter p’ra mim, sem sexo, sem corpos nus, p’ra mim, em cristal.
Não é nada normal ela se atrasar, o meu Amor nunca se atrasa, nunca, ela tem o seu pequeno relógio, eu sei que tem, eu vi-a pela manhã.
Já te disse o que ela vestiu hoje?! Não?! Hoje tem um vestido, branco de linho, assenta-lhe tão bem, baila em seu corpo, o branco em linho, com aquele sorriso pequeno, com aquele flutuar, com o seu cabelo a aquecer os ombros, cabelo longo, encaracolado, castanho claro! Acho que sei cabelo cheira à noite, tem o cheiro de estrelas, de nuvens e de luas.
O meu Amor é lindo, não é?! É! É o meu Amor!
Não, não lhe vou ligar, não a quero incomodar, deve estar quase a chegar, eu sei que sim, quase a chegar. Além do mais não tenho aqui o número dela, chega-me lhe saber a janela, eu sei que ela está a chegar, eu sei.
Esta noite cozinho p’ra ela, como todas as noites! Tenho a sua fotografia aqui, aqui em meu peito, todas as noites visto o avental p’ra ela, deixo estar o seu prato em cima da mesa, mas ela normalmente nunca vem jantar ao mesmo tempo que eu, mas eu cozinho p’ra ela, deixo o seu prato em cima da mesa, com a comida ao lado, deixo sempre uma rosa e um bilhete a dizer o quão linda ela é, linda, o meu Amor e pela manhã está tudo arrumado, tudo. Ela gosta de jazz… acho… não, não eu sei que ela gosta de jazz! Enquanto cozinho p’ra ela deixo sempre Coltrane a tocar, quase me soa à voz dela, quase, a falar-me, a sussurrar-me, ao ouvido
O meu Amor nunca olha p’ra mim, é envergonhada ela, tímida, nunca olha, mas eu não me importo, chega-me saber-lhe, eu olho p’ra ela, ela sabe que sim, que eu gosto de olhar p’ra ela embora ela não olhe p’ra mim. O meu Amor sabe… Sabe que a minha voz está aqui, sempre pronta, sabe que tem aqui os meus braços à espera, sempre com vontade.
O meu Amor está atrasada, ela nunca se atrasa, tem o seu pequeno relógio, onde está? O meu Amor, onde?
Claro que ela sabe que eu estou aqui, claro que eu faço parte da vida dela e ela da minha! Ela existe, ela vai ser real!
Eu sei que o meu Amor virá, ela vem sempre, sempre.
É linda, não é? O meu Amor?!
Já te falei? Do meu Amor...? Já te disse? Ela é linda...



