Quinta-feira, Julho 24

Little [bit] Late


O meu Amor nunca mais vem... não é normal este atraso, costuma chegar sempre a horas, sempre pontual com o seu pequeno relógio! Sim, é tudo pequeno com ela, gosta das coisas pequenas, até o seu sorriso é pequeno, conservador e ameno, tal como a sua bolsa, nunca vi uma mulher com tantas bolsas pequenas como ela, é estranho mas engraçado ao mesmo tempo!

Nunca a viste?! A sério?! Nunca mesmo?! É linda, ela é linda, juro! Claro que a minha opinião é cega, mas gosto desta cegueira que ela irradia em mim!

Ela é como… como… como aquele momento em que o vento respira quando sopra por um chão poeirento, em que consegues ver todas as partículas a pairar, como se alguém tivesse carregado no botão “Pause” e depois volta, o vento volta… Eu fico pasmado cada vez que a vejo, não me sinto a respirar sequer, não me sinto, sou mais que eu mesmo, mais que eu.

Tem um andar pequeno… Sim! Sim! Tal como a bolsa e o sorriso e o relógio, pequeno, leve, não é como aquelas que se abanam todas, não, nada disso, não o meu Amor! Anda suave, diferente… Melhor, não anda, desliza, entre as ruas, entre as pessoas… É mesmo isso, desliza… Gosto tanto da pele dela pela manhã, nunca a vi acordar, nunca assisti a esse momento em que ela abre os olhos… mas já a vi pela manhã, ao longe, só ao longe, mas acorda com a pele brilhante, calma, dá vontade de tocar, muito, vontade de não parar de tocar…

Desculpa?! Não!! Não mesmo!! Sexo, não!! Ela é além disso mesmo… não tenho capacidade de lhe tocar, não que me falte a vontade, ela é vidro, é cristal, não lhe quero estilhaçar o corpo, só a quero ter p’ra mim, sem sexo, sem corpos nus, p’ra mim, em cristal.

Não é nada normal ela se atrasar, o meu Amor nunca se atrasa, nunca, ela tem o seu pequeno relógio, eu sei que tem, eu vi-a pela manhã.

Já te disse o que ela vestiu hoje?! Não?! Hoje tem um vestido, branco de linho, assenta-lhe tão bem, baila em seu corpo, o branco em linho, com aquele sorriso pequeno, com aquele flutuar, com o seu cabelo a aquecer os ombros, cabelo longo, encaracolado, castanho claro! Acho que sei cabelo cheira à noite, tem o cheiro de estrelas, de nuvens e de luas.

O meu Amor é lindo, não é?! É! É o meu Amor!

Não, não lhe vou ligar, não a quero incomodar, deve estar quase a chegar, eu sei que sim, quase a chegar. Além do mais não tenho aqui o número dela, chega-me lhe saber a janela, eu sei que ela está a chegar, eu sei.

Esta noite cozinho p’ra ela, como todas as noites! Tenho a sua fotografia aqui, aqui em meu peito, todas as noites visto o avental p’ra ela, deixo estar o seu prato em cima da mesa, mas ela normalmente nunca vem jantar ao mesmo tempo que eu, mas eu cozinho p’ra ela, deixo o seu prato em cima da mesa, com a comida ao lado, deixo sempre uma rosa e um bilhete a dizer o quão linda ela é, linda, o meu Amor e pela manhã está tudo arrumado, tudo. Ela gosta de jazz… acho… não, não eu sei que ela gosta de jazz! Enquanto cozinho p’ra ela deixo sempre Coltrane a tocar, quase me soa à voz dela, quase, a falar-me, a sussurrar-me, ao ouvido

O meu Amor nunca olha p’ra mim, é envergonhada ela, tímida, nunca olha, mas eu não me importo, chega-me saber-lhe, eu olho p’ra ela, ela sabe que sim, que eu gosto de olhar p’ra ela embora ela não olhe p’ra mim. O meu Amor sabe… Sabe que a minha voz está aqui, sempre pronta, sabe que tem aqui os meus braços à espera, sempre com vontade.

O meu Amor está atrasada, ela nunca se atrasa, tem o seu pequeno relógio, onde está? O meu Amor, onde?

Claro que ela sabe que eu estou aqui, claro que eu faço parte da vida dela e ela da minha! Ela existe, ela vai ser real!

Eu sei que o meu Amor virá, ela vem sempre, sempre.

É linda, não é? O meu Amor?!

Já te falei? Do meu Amor...? Já te disse? Ela é linda...

Quarta-feira, Julho 23

F. [atal]




Hoje, só e apenas hoje, terás nome por aqui.

F., chamo-te F., uma letra dorida e um ponto repleto de reticências F. assim, só.

Apresento-te ao Mundo, és meu fantasma, meu privado fantasma. [Sorri...!]

Passaram alguns anos, 3 ou 4, nem sei bem, a minha cabeça sempre foi um nó cego p’ra datas, bem sabes. Ainda te reconheço a face e o andar, por vezes juro que te vejo, onde não estás, onde não és, onde não ficas, nestas ruas.

Preciso de um cigarro, cada vez que falo em ti ou me lembro de ti preciso de fumar, és fria, lúgubre de memória, quero manter as minhas mãos quentes enquanto te confesso.

Mudei de óculos, sabias? Deixei os azuis, tanto que sofreram em minhas mãos, depois uns pretos e agora uns que nem sei bem qual é a cor ao certo. Mudei de perfume, não aguentava mais aquele cheiro que usamos em nossas peles e tu, será que ainda usas o mesmo…? Será que ainda usas o mesmo sorriso…?

Ainda te sei – assim eu penso – ainda te sei.

A cidade, fora da minha janela, está bela. Os prédios ardem entre o sol dormente, o céu não sorri, reservado, observa a queda de um qualquer sonho.

Tenho as tuas sobras espalhadas por minha casa, o teu cachecol ainda no cabide – a cega vontade de ouvir o tecido cair por tua pele – os teus olhos, pregados em minha parede, em meu quarto.

Ainda ouço a tua voz, por vezes, espalhada por todo este branco enquanto eu detestava as tuas unhas pintadas e a tua maquilhagem e os teus decotes e os teus cintos [tudo se torna agora numa forma racional envenenada].

Vou rasgando todas as páginas de teu ser, desejoso por tomar ignorância minhas mãos. Ser abismo, já que o esquecimento é uma impossibilidade.

Dorme F., dorme, teu corpo cristal torna-se lâmina em minha consciência, torna-se vazio, torna-se oco.

Beijei-te em demasiadas marés prata, o fim nunca existiu, ficaram restos de ti por aqui e os meus restos por ai. Quantas noites amadas ao infinito, quantos passeios de mãos dadas, quantos tempos e ritmos [2 corpos nus, sem intenção de parar, sem intenção de ser nada mais do que pedaços cortantes invadindo um e outro].

F. não é te esquecer, mas sim perdoar-me a mim próprio.

Dá-me a mão F., a tua mão. Vem, vou abandonar-te pela cidade, onde os prédios mordem os céus, onde as pessoas não se olham, onde tens um novo homem, onde eu não te quero saber, perdida, partida, onde tu pertences, na tua cidade.

É Sylvian que toca por aqui – eu sei ­– nunca irás conhecer, tal como outras tantas coisas.

Sorri mais uma vez F., abandonei-te.

Sábado, Julho 19

Why Not [?]





First thought...


Best thought.



Terça-feira, Julho 15

[ ] Bang!


... e o meu coração dispara como uma bala.

Odeio esta minha alma revólver!


Não é pólvora que queima em mim, mas sim, vida!





["E quando a falta de palavras rasga mais ainda a pele?"]

[As palavras são apenas um invólucro. O gume aninha-se no silêncio...!]



Sábado, Julho 5

[No] Song


Era só mais um cigarro enquanto espero, só mais um.


Vi-a!


Vestia preto: saia preta, cintada, até ao joelho. Uma camisola em bico preta também, sapato alto.


Cheguei a horas…!


O teu chegar a horas é relativo, o atraso ‘tá sempre incluído…


É p’ro charme… eu sei que gostas de me esperar…


Sorriu.


Um dia, não espero.


Amarrou-me o pulso.


Tu adoras que eu seja este género de undercover lover…


Silêncio.


Repara… meias de liga pretas, só p’ra ti… Quero dançar.


Olhos nos olhos…


Subimos?!


Não.




[Rasga-me o corpo… Rasga-o em palavras... Rasgas, não rasgas…?]