
Mãos, as tuas, algemas presas a meu pescoço, pálidas, unhas pintadas a vermelho sangue, Gnossiennes de Satie brotava ruídos e as mãos, tuas, algemas.
Tremia-me o cigarro preso na boca, o fumo erguendo formas absurdas neste quarto em que o oxigénio tendia a desvanecer como uma memória longínqua, apagada entre dedos e alquimias.
Lábios: os teus - combinavam com as unhas, a pele pálida, luar, que eu temia na mesma extensão de a desejar em minha saliva. Aquela face tépida, como um fantasma, que avançava por mim, em mim, sem eu me conhecer, arrancando gestos lentos de meus dedos.
Satie calado por segundos, teus olhos fixos nos meus, meus olhos a querer fugir, respiramos a falta de ar que absorve a diminuta distância do quase toque de um beijo mudo, Satie volta, as teclas que adormecem minhas paredes, bailam partículas de pó por entre a persiana aberta p’ra rua que se esconde e teme os teus passos zinco.
Desabotoo teus cabelos noite, escondem parte de tua boca entreaberta. [Olhas:] o beijo que mistura teus lábios e o sabor de teus cabelos em minhas mãos, o fio de saliva que se prende e se rasga, o imenso mar morno que se senta neste instante depois.
Encerras o silêncio por tua privada fala, dás-me a acender um cigarro que logo a seguir roubas e me gozas enquanto o fumas, eu, ali, preso, delicio-me nesta tortura delicada que me vais oferecendo entre nuances do que eu nunca hei-de tomar como meu.
Aproximas-te um pouco mais, eu estremeço, deixas o fumo fluir de tua boca p’ra minha, bebo-o sedento, tua boca a roçar na minha, o vermelho sangue no meu lábio inferior, o teu lábio superior com uma minúscula falha.
Vejo-te: humana.
Profano todas as linhas que salivo neste festim nocturno[.]
