
[Rasgar-te as asas…!]
Acordo, dois dias, esta ideia matinal latente em todo eu, [Rasgar-te as asas…!], embriago-me até ao trabalho com Joy Division ou Tom Waits, o resto do dia é apenas um eco indesejado da soma dessas letras.
Noite: não que a deseje ou a receie, mas estas palavras não são amigas, não são confortáveis, não são poetas, não são suspiros ou desabafos… Necessidade, necessidade desconhecida.
Chego sempre a casa com um cigarro por acender, o isqueiro apenas funciona quando destravo meu mundo. Brindo-me com Antony and the Johnsons, um copo de Old e uma folha em branco.
“ II “
Sai da cidade onde me habito, vim por uns dias para a cidade onde me sou estrangeiro.
Bailam em meus pés os lábios de uma brisa fria, saboreando no escuro pedaços de jornais velhos e poeiras, sou iluminado por estrelas amareladas e metálicas alinhadas de uma forma militar.
Preencho-me de memórias – tua boca e as lágrimas que eu teimava em beber de teu corpo – não vejo, não ouço, não sinto ninguém, esta cidade é uma forma invisível, dou minha mão ao nada, que me senta num banco de jardim vermelho, abraçando-me, muito, como uma criança perdida.
Cair: das mãos, a solidão que me arrasta os pés e os dedos, o som que me embala nas letras de um céu absorvido por nuvens sisudas.
Por vezes Perseguir e Sonhar são conceitos adicionais, ou Sonhar e Perseguir [ ]
[ ] persigo o dia em que sonho que todas as palavras serão formas mestras em tuas mãos.
“ III ”
– És efeito e consequência de uma guerra de silêncios –
< Tenho teu pálido gosto por meus lábios >, acendo um cigarro.
< O trago de tua pele deitada em minhas mãos >, queimo esfomeado o cigarro, levo um copo a minha boca.
< Confessas teus pecados a meu ouvido enquanto me dás a beber teu suor >, abro janelas, respiro este ar que me dilacera os pulmões.
< Lamber teus olhos >, chega-me, música, mais alta! ~
“ IV “
[
Neste escuro, eu e tu, o mundo não é chamado aqui, só eu e tu.
Pressiona teus dedos contra meus lábios, quero sentir o sabor salino… um pouco mais forte, sabes como eu gosto.
Sente-me, quero palavras. Não, não as fales, escreve-as antes em meu peito com tua língua.
Não te serei sexo hoje, serei copo de vidro bruto.
Bebe-me, bebe-me muito Meu Amor.
]
“ V ”
– Desculpa-me – será suficiente?
– Só te quero em mim – irá chegar?
– Já adormeci toda minha guerra – voltas-me?
“ VI “
[.] São dias sóbrios, por esta cidade onde me sou estrangeiro. Pertenço a um corpo assombrado confessando-se pecador. Escrevo as linhas que faltam, tenho a alma por gasolina e mãos por chuva. [.]
“ VII “
– Tomo a queda por charme, de braços adormecidos, medico todas as letras que somam palavras com um beijo em ti. Desenho o mundo –
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